03/10/09

Com culpa, com afeto


Lara se sentou no banco do centro da praça. As pombas levantaram voo quando passamos, montando uma tomada digna de inveja até de Godard. A acompanhei e me sentei do seu lado. Seu rosto já não tinha mais a vida de outrora, perdia a felicidade. Ainda olhando para baixo, pegou minha mão e disse:
- Podia ter sido você, Theo.
- E por que não foi?
Ela não respondeu. Exalava melancolia. Deitou no meu colo e se concentrou no infinito à sua frente. Eu também não sabia o que dizer. Eu não sabia o que era este sentimento que insistia em surgir dentro de mim toda vez que estávamos sós.
- Podia ter sido você, Theo.
- E por que não foi?
- Eu não sei. Mas não foi.
- Você o ama?
- Como assim?
- Amor. Você o ama?
- Amo sim. Acho que o amo tanto que esqueço até de mim.
Aquelas palavras pesaram no meu estômago. Me perguntei o que estava fazendo ali.
- Se você o ama e está feliz com isso, é o que importa.
- Eu o amo e só. Não sei se me sinto feliz com isso. Às vezes sinto que todo meu amor é em vão. Ainda mais quando você chega e bagunça tudo.
Eu poderia muito bem perguntar sobre que ela se referia, mas já sabia a resposta. Sendo assim, deixei que o silêncio nos cobrisse. Em um instante, o ambiente já estava todo tomado por ele. Não havia o que dizer. Ela se virou pra mim e escondemos no silêncio um beijo carregado de culpa.

09/09/09

Ainda que tardia


Que descanse em paz o último cigarro que joguei na BR.
Uma manhã fria e a neblina quase me cegando.
Parado na estrada, esperando uma carona com minha inseparável mala vermelha, vejo os pássaros que enfrentam o frio e a cegueira em busca de uma nova rota.
Por que, então, me prender?Por que não voar?
A dificuldade de locomoção e os laços emotivos e sentimentais me impedem de ser independente.
Mas, afinal, que independência é essa que procuro?
Acho que procuro ser livre para poder ir e vir por onde quiser.
Procuro ser livre para poder pensar e agir da maneira que quero.
Ser livre para correr num campo verde sob um sol de domingo.
Independência é muito mais do que hastear a bandeira do Brasil no dia 7 de setembro. Independência é um estado de espírito.
Independência é não precisar de ninguém em hora alguma.
É viver de si pra si e só.Acho que a independência é chata.
Me vejo como um velho cinza, sentado na poltrona de napa e fumando um charuto enquanto o gato roça na perna.
Um velho solitário e egoísta, que já não precisa mais da família e nem de ninguém.
Não sei se quero voar.
Talvez meu umbigo esteja bem enterrado mesmo.
Posso fugir, esquecer do meu mundo por um tempo, mas sei que logo estarei de volta.
Da mesma forma, eu sei que verei esses mesmos pássaros, voltando pra cá num próximo verão.

08/08/09

Círculos


A vida realmente gira em círculos. Círculos, círculos, rodinhas na grama e um violão tocando J1. A vida gira mais rápido depois de um copo de guaraná catuaba cachaça cerveja vodca e coca-cola. E quando tudo roda, é outra pessoa que rasga beijos sem sentidos e queima inúmeros cigarros. É outra pessoa que sobe correndo a rua de pedras e se junta à rodinha na grama e logo depois samba quando tocam Ana Júlia. Outra pessoa, há, me faz rir. Será mesmo que foi outra pessoa que sentou no chão, agarrou a primeira mulher que viu e trococu juras de amor em francês, inglês, espanhol e português? Que seja, era uma pessoa feliz. Chata (muito chata) mas feliz.
Mas, querendo ou não, ela vai embora no dia seguinte e, no lugar dela, fico eu. Ficou eu com a culpa, a dor de cabeça e a vergonha. Fico eu com a agenda telefônica na mão ligando para os que me lembro e pedindo desculpas. Fico eu com o dia seguinte.
A vida continua girando em círculos no dia seguinte. Me pego rindo ao perguntar pra Jas: "É impressão minha ou está tocando Rehab?". E então, eu e mais todos aqueles que me acompanharam nessa louca aventura estamos mais uma vez sentados na grama. Desta vez não há álcool nem cigaros, mas apenas uma garrafa de Coca-Cola. Desta vez, o fade out vem com todos nós cantando: "They try make me go to rehab, but say no no no".
Pois é, a vida realmente gira em círculos.

10/07/09

Cinco

Cinco meses! É, já se passaram cinco meses. Faltam só sete agora. Bem que minha mãe dizia, um ano passa rápido. Não, não está passando rápido. Faz cinco meses que saí de casa e parece que faz cinco anos que estou nessa extensão do inferno. Mas, no fundo, eu não me importo. Eu não me importo com bombas, com carros que colidem, com aviões que caem, com conflitos no Oriente Médio ou com a morte do Michael Jackson. Eu me preocupo com as paredes mortas que me cercam e me prendem aqui. Me preocupo com a comida que não mata a minha fome, com os amores inacabados que enfeitam meu travesseiro, com os bolos de aniversário com cobertura de chocolate. Enfim, o que me importa é o meu mundo. Sou um egoísta de mão cheia, mais um desses tantos egoístas que se cruzam na calçada. Minha janela para o mundo, a TV, agora está quebrada em cima da mesa da cozinha. Talvez isso justifique minha não-preocupação com as aflições gerais. Talvez eu não seja tão egoísta assim. Ontem de tarde, arrumava minha mala vermelha e me dirigia rumo ao desconhecido. Hoje percebo que já se passaram cinco meses. Para um ano, faltam só sete meses. É, talvez esteja passando rápido. Uma vez alguém me disse que um ano passa muito rápido. Acho que foi minha mãe. Mas, se olhar bem, ver tudo que passei, corri, morri, vivi, saí, acho que não está passando tão rápido assim. Que seja, eu não me importo com o tempo ou com o mundo. Eu me importo com os amigos que deixei esperando do lado de lá. Me importo com os avós na janela, com a calçada de pedra, com os filmes no casarão e com as tardes coloridas. Eu me importo com o meu mundo e só. Um dia ainda volto e trago pra todos presentes exóticos que encontrei aqui. Um dia volto e moro para sempre na casa da colina. Eu sou um egoísta de mão cheia. Me importo com o meu mundo e só. Um dia volto e faço bolas de sabão deitado na grama. É meu mundo e é algo com que me importo. Eu me importo com o meu mundo e só.
E você, se importa com quê?

26/06/09

Um Chá Expressionista Alemão















Eles se amavam. Eles realmente se amavam. Viviam um amor incondicional, mas um amor diferente de todos esses amores que escorriam nas novelas. Ele nunca havia amado qualquer outro ser humano. Talvez isso soe muito pesado. Tudo bem, ele já havia amado antes, mas a frase "Eu te amo" só saiu de sua boca para os ouvidos dela. Ela era uma jovem insegura. Ela realmente o amava, o amava tanto que sufucava-se com seu próprio amor. Ela o amava tanto, que chegava a pensar que amava mais a ele do que a ela mesma. Ela o amava tanto e gostava tanto desse amor, que tinha medo de um dia acordar e o amor ter sumido. Ela se desesperava ao se afastar dele. Ele a amava e pra ele bastava sentir esse amor que tudo estava bem. Ele dedicava uma parte de sua vida só para ela e a amava mais do que qualquer coisa nesse mundo. Ele a amava tanto que morria de raiva quando ela duvidava desse amor. Enfim, eles se amavam.
Numa tarde de sábado, eles simplesmente se esqueceram que se amavam (na verdade, eles ainda se amavam, mas não aquele amor que bate uma tecla três vezes por segundo para não cair no esquecimento). Ela foi tomar chá com uma velha senhora, que tinha uma linda casa cheia de livros e filmes. Ele foi ao cinema com os amigos. A senhora contou sobre seu falecido marido e seu contato com Guimarães Rosa. O filme, ainda em preto e branco, era fruto do expressionismo alemão. Dora, a senhora, não tinha filhos e, por isso, era tão boa com os jovens. Talvez quisesse adotar um agora. Na tela, explodia "M - O Vampiro de Dusseldorf". Era um filme surpreendente. O chá se transformou em vinho e a literatura se transformou em pintura. Ela tinha a casa mais legal do mundo. O filme acabou e ele se dirigiu pra casa. Ela foi embora com uma sacola cheia de filmes e livros. Eles irradiavam felicidade.
Eles, então, se lembraram que se amavam. Eles se encontraram e começaram a pedir explicações sobre a tarde ausente. Ele quis contar sobre o filme, mas ela não quis ouvir, pois queria contar sobre a senhora. Ele, não quis ouvir nada sobre o chá, pois queria contar sobre o filme. Os dois se desencontraram e partiram. A noite pesava sobre a cabeça de cada um. Antes de dormir, ambos pegaram o telefone no momento exato que o outro estava ligando. E, na ligação, um "Eu te amo" envergonhado.
Sim, eles se amavam. Eles realmente se amavam.

17/05/09

Chuva


-É só o vento batendo no vidro da janela.
Debaixo dos lençóis,ela susurrou:
-Sempre me assusta,a chuva.
Continuei de pé,ao lado da cama,coberto de sombra.Um cigarro.
-A chuva sempre me deixa melancólico.
-A mim ela sempre assusta.
-Me assusto mais com o vento.
Com um pequeno movimento,ela retira o lençol e se senta na beirada da cama,enquanto diz,atordoada:
-É do vento que falo.
-Você falou da chuva.
-Que seja...pensei no vento.
Três minutos de um profundo silêncio.Silêncio que gritava de uma só vez o tudo que nos fazia sentir nada.
-Quando ele volta?
-Ele?Quem?
-Seu marido.
-Acho que semana que vem.
Ando de um lado ao outro.Meu corpo exala o cheiro de todos os sentimentos que me sufocavam.Ela me acompanha com os olhos.Penso nos fatos e decido.
-Não,eu não vou matá-lo.
-Mudou de ideia?
Outro estouro.
-É só o vento batendo no vidro da janela.
-O vento sempre me assusta.
-Me assusto mais com a vida.
Me cubro de chuva.Me pinto de vento.

02/05/09

E daí?

A moça brinca com as flores na janela
Um acerto de imediato
Um tombo e um recomeço
Eu ainda te procuro nas fachadas pichadas
Te pinto nos muros da esquina
Minha hipocrisia vai superar seu abandono
Mas que abandono é esse?, você me pergunta
Não se pode juntar de novo o que estava separado
Meu quarto é vazio e minhas paredes são brancas
As roupas jogadas na sala me desesperam
Me revoltam e me fazem querer romper com toda essa estética
Eu quero quebrar a poesia, destruir toda a narrativa
Sufoque-se com meu lirismo indecifrável
Eu falo de amor, e daí? Eu falo de tudo e de nada, e daí?
Eu crio o movimento literário
Eu contorno a prosa
Eu disseco palavras e estupro sentimentos
E daí?
É revolta, é agonia, é desespero.
Eu sei, é clichê. Eu sou um clichê! E é tão clichê ser clichê hoje em dia.
Mas, e daí?
Antes que o comodismo se torne insuportável
Antes que você perca a cabeça
Antes que as palavras se juntem e se tornem uma frase
Decifra-me ou devoro-te

Moedas para um velho violeiro jogado na calçada